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O dia em que fui parar (nu) num banho misto de águas termais no Japão

15/11/2017

 

Tem muita coisa bacana no Japão. Não é à toa que eu estou aqui há 12 anos. Mas não tem nada que eu goste mais do que um bom banho de águas termais. Como se sabe, o Japão é um país com alta atividade sísmica. É por isso que terremotos são constantes e, de tempos em tempos, grandes catástrofes chocam o mundo. Óbvio que isso assusta um pouco, apesar de sabermos que, se existe um país no mundo preparado para encarar grandes terremotos, esse país é o Japão. Além disso, pouca gente fala sobre o lado bom de ter o chão tremendo debaixo dos pés pelo menos umas três vezes por mês. É o calor gerado pela atividade sísmica que dá origem às águas termais. Não há lugar no arquipélago japonês onde não exista pelo menos um ponto com água quente jorrando do solo. E em cada um desses lugares existe algum onsen, ou seja, um banho de águas termais.

 

Desde que fui apresentado ao banho de águas termais, me tornei uma espécie de caçador de onsen. Já visitei vários em diversas partes do país e o meu objetivo é sempre descobrir algo novo. Foi esse impulso que me levou até Shirahone Onsen, uma estância de águas termais escondida nas montanhas da província de Nagano. As imagens do local na internet eram promissoras: um roten-buro (banho ao ar livre) enorme, com água azul-esverdeada, no meio da neve (foto acima). Era o meu sonho de águas termais no inverno japonês.

 

O acesso a Shirahone Onsen no inverno não é fácil. A localidade fica a pouco mais de uma hora de ônibus de Matsumoto, cidade conhecida por ter um dos mais belos castelos do Japão. Acontece que, no inverno, a estrada é coberta de neve e a viagem acaba sendo bem mais lenta. Ainda assim, acabei chegando na localidade pouco antes da abertura do Awanoyu, uma pousada icônica da região que permite que não hóspedes usem alguns de seus roten-buro por algumas horas do dia pagando um valor determinado. 

 

Desci do ônibus no ponto final, bem na parte inferior do vale, sob congelantes 10 graus negativos. Meu objetivo era ver um pouco da paisagem do local antes de mergulhar nas águas termais. O que eu não esperava era que a neve acumulada naquele mês de fevereiro seria um problema. Brasileiros não são muito habituados à neve mas eu estava preparado. Muita roupa de baixo, um casaco poderoso e até um tênis que dava para o gasto... Era pelo menos o que eu achava...

 

Tanta era a neve em Shirahone Onsen que caminhar ladeira a cima, de volta para o Awanoyu, estava se tornando missão impossível. A neve numa estrada onde carros passam com alguma frequência está mais para uma pista de patinação no gelo do que para aqueles tufos de algodão macio e fofinho que costumam aparecer nos filmes natalinos. E eu já tinha tomado tantos tombos naquele começo de subida que não me vinha na cabeça outra ideia melhor do que andar de quatro pela neve. Isso até que um carro que subia a pirambeira com certa dificuldade decidiu parar em meu socorro.

 

Era um casal japonês que, mais tarde eu saberia, era apaixonado por águas termais e tinha passado a noite numa pousada próxima. Como eu, eles tinham vindo a Shirahone Onsen para conhecer o "icônico" banho termal do Awanoyu. Até então, eu não tinha ideia do que o adjetivo que acompanhava o nome da pousada significava. Para mim, as águas azuladas, a natureza em volta e a neve já eram suficientes para transformar o local em um ícone dentre os banhos de águas termais do Japão.

 

Espantado ao me ver caminhando quase que como um urso na neve espessa, o homem dentro do carro tentou me perguntar, num inglês muito quebrado, para onde eu ia. Em japonês, contei para ele que estava querendo chegar ao Awanoyu. Com um certo alívio de não precisar ter que se comunicar em outra língua, o homem me ofereceu uma carona. Sem pensar duas vezes, subi no carro agradecendo aos deuses das águas termais já que, no ritmo em que estava me movendo, iria levar pelo menos mais 20 minutos e uns 30 tombos até que eu conseguisse encarar o meu banho de águas termais.

 

Mas nem tudo seria tão rápido. Depois de alguns engasgos na ladeira e virada uma curva, o carro decidiu não prosseguir mais. Com tanta neve, era difícil subir a ladeira, ainda mais com um passageiro extra de mais de 100 quilos. Saímos do carro — eu e o homem — e, com a mulher assumindo o volante, começamos a empurrar o veículo. Por sorte, o carro pegou tração já na segunda tentativa e, assim, corremos os dois para dentro do veículo e subimos o resto da pirambeira. Finalmente, estava pronto para desfrutar do maior deleite que a atividade vulcânica pode oferecer para o ser humano.

 

Uma Tradição Japonesa

 

Registros de uso das águas termais para banhos são tão antigos quanto o próprio Japão. Ao longo da história, os onsen vêm sendo usados para a purificação da alma, para a cura de doenças e como espaço de socialização. Deste último caso, não faltam relatos, registrados em diversas épocas, de amizades que começam e se aprofundam num banho de águas termais. A expressão hadaka-no-tsukiai define.

 

Hadaka quer dizer 'nu' e é assim que se frequenta os banhos de águas termais no Japão. Hadaka-no-tsukiai significa, literalmente, um 'encontro pelado'. Na prática, se refere à relação de amizade que pode surgir ou se aprofundar num banho de águas termais. No Japão, se acredita que, ao tirarmos as vestes, nos despimos também de nossas pretensões e máscaras. Em outras palavras, nus seríamos mais abertos, sinceros e receptivos. 

 

 

O Awanoyu é um típico onsen de montanha. Rústicas, as instalações de madeira levam a uma imersão no tempo. Tudo no ambiente é bucólico e transmite conforto, exatamente o que alguém vai buscar num banho de águas termais nas montanhas.

 

Depois de pagar a entrada, o usuário segue para um vestiário onde estavam, além de mim, não mais do que duas ou três almas. Uma delas era o senhor que me ofereceu carona. É aqui que nos despimos das roupas e, quem sabe, também das máscaras e pretensões. Tudo fica guardado num armário e a chave vai com o banhista, presa numa espécie de braçadeira.

 

Saindo do vestiário, chega-se ao espaço interno de banho. À minha memória, só vem o ofurô, que nem sempre corresponde à ideia de 'banheira japonesa' que se tem no Brasil. No Japão, são chamados de ofurô desde a banheira de uma residência até as piscinas rasas das casas de banho públicas. Todo onsen que se preze tem pelo menos um ofurô interno (uchiyu, em japonês) e um externo, o já citado roten-buro.

 

Além dos ofurôs, existe uma espécie de estação de banho, com espelhos, chuveiros de mão e banquinhos, tudo numa altura que não deve passar de um metro, como se fosse um mundo feito para crianças. Neste espaço é feita a higiene do corpo. Dentro dos ofurôs não é possível usar sabonete, shampoo ou cosméticos. De um modo geral, apenas lava-se o corpo na entrada, retirando o suor e a sujeira 'mais grossa'. Somente depois de entrar e relaxar nos ofurôs é que o sujeito faz a higiene completa do corpo e a barba.

 

No Awanoyu, o uchiyu fica num dos cantos do cômodo de banhos, dando para uma janela devassada de vidro e madeira. A vista é de um jardim e, sim, é reconfortante. Mas não me ative ao banho interno porque queria ir rapidamente para o roten-buro. São três desses banhos externos no Awanoyu. Um deles leva o sugestivo nome de Yukimi. No Japão, é comum dar nome aos banhos de águas termais. Em geral, é forma mais fácil de 'vender' o local para um cliente.

 

Segui, então, da estação de banho para uma espécie de corredor coberto e escuro, relativamente curto. Chegando quase no final deste corredor de madeira, ficam umas escadas. O banhista vai descendo e, já no corredor/túnel, começa a sentir seu corpo mergulhando nas águas azuladas e quentes do roten-buro. Aquele corredor de madeira, com uma luz lá no final, é quase que um rito de passagem. Vamos deixando para trás o mundano, o cansaço, as preocupações e seguimos para um momento de comunhão com os sons, os cheiros e o ar puro da montanha.

 

Entrei no Yukimi, um roten-buro que entrega exatamente o que vende. A palavra significa, literalmente, 'vista da neve'. É isso o que recebemos ao sair do corredor. Encantado com o lago azulado e quente, procurei um canto para me recostar e apreciar a paisagem. Passando por pequenas pedras que tornam o lago de águas termais ainda mais belo e me recostei exatamente na ponta extrema, de frente para a porta. A sensação de paz é tão grande que é difícil manter os olhos abertos. Mas o roten-buro do Awanoyu não fica aberto o tempo todo para não hóspedes e, no momento em que eu abri o olho para desfrutar novamente a paisagem, vi alguém, que me parecia ser uma mulher, vindo em minha direção. Dentro da água. E, aparentemente, nua.

 

A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi olhar ao redor. Duas ou três outras almas estavam em partes esparsas do lago azulado. Uma delas era o homem que tinha me oferecido carona e que descansava tranquilamente com a cabeça encostada numa pedra na margem do ofurô. Não, eu não estava no ofurô errado. Nem teria como. O acesso aos espaços segregados por sexo se dão pelos vestiários. Eu estava certo de que tinha trocado de roupa num vestiário masculino.

 

imagem: Sugayu Onsen

 

Minha segunda reação foi tentar conferir se os outros homens estavam também nus. Neste momento, um senhor bem velhinho que estava numa outra ponta do lago se levantou e, sim, ele estava peladíssimo. Então, veio a terceira reação, de certo modo instintiva: procurar não olhar para a mulher para conferir se ela, também, estava nua. Mas, como a mulher vinha na minha direção, era impossível tirá-la do meu campo de visão. Foi neste momento que eu percebi que se tratava da senhora do carro, a mesma que tinha me oferecido carona. Ela passou por mim, a uma certa distância física, me cumprimentou e se juntou ao marido que estava a uns 3 metros de distância.

 

Ambos agiam naturalmente e, ao que parece, nenhuma das outras almas que dividiam conosco a piscina estava muito preocupada com a presença da mulher. Em outras palavras, eu poderia não saber onde estava mas eles não somente sabiam como pareciam ter certeza de que não havia nada de errado.

 

Quando o nu era o estilo

 

Até a Era Meiji (1867 - 1912) não havia segregação de sexos nos banhos de águas termais. Em outras palavras, homens e mulheres usavam o mesmo ofurô. Nus. Com a abertura do Japão ao exterior, depois de dois séculos de isolamento, estrangeiros começaram a visitar o país e, em seus relatos, demonstraram surpresa com os hábitos 'pouco convencionais' dos locais.

 

George Smith foi bispo de Igreja Anglicana em Hong Kong e em seu livro-relato 'Ten Days in Japan' comenta sobre os banhos públicos no Japão. "A partir do final da tarde ou à noitinha, gente de todas as idades e ambos os sexos juntam-se em uma horda de banhistas desavergonhados, sem sinais de pudor ou qualquer senso aparente de decoro moral", escreveu ele, em 1861. Sete anos depois, banhos públicos mistos foram tornados proibidos em Tóquio. Para um país que estava deixando para trás o passado samurai e os cortes de cabeça na espada, os banhos mistos também eram motivo de vergonha.

 

Quase dois séculos depois, são poucos os banhos públicos de águas termais que permitem homens e mulheres usarem o mesmo ofurô nus. Mas eles ainda existem. Ou melhor, resistem. Chamados de kon'yoku onsen em japonês, esses banhos são muitas vezes tratados como secretos. Por outro lado, são vistos como espaços de resistência cultural. Atualmente, estima-se que existem cerca de 500 kon'yoku onsen em funcionamento no Japão. Há menos de 30 anos, eram mais de 1200.

 

imagem: Sugayu Onsen

 

O Awanoyu é um deles. Em seu site, a pousada canta, sem exageros, loas à tradição, à tranquilidade e às belezas naturais de seu banho de águas termais. E também tranquiliza as mulheres de que este é um espaço seguro para elas. A preocupação não é descabida. Boa parte dos kon'yoku onsen são banhos comunitários, muitos deles em áreas como florestas. Relatos de grupos usando os banhos mistos para fins sexuais costumam aparecer de vez em quando. Um dos casos mais recentes ocorreu na província de Fukushima. A prefeitura da cidade onde se localiza o banho decidiu fechá-lo por um tempo. 

 

Outra situação corriqueira são homens, em especial mais velhos, que se aproveitam dos banhos públicos para olhar mulheres jovens nuas. Este tipo de banhista indiscreto é chamado em japonês de wani, ou seja, jacaré. Isso porque eles ficam por horas a fio na água, à espreita de alguma vítima. De um modo geral, esses homens não se aproximam das mulheres. Mas, sim, é extremamente desagradável — e assustador — ser observado nu por um desconhecido quando seu único objetivo é relaxar.

 

Os fãs e frequentadores de kon'yoku onsen costumam dizer que tem sido esse tipo de comportamento o que acaba levando diversos estabelecimentos ao fechamento ou à mudança na política de funcionamento. Alguns abandonam completamente o formato misto e segregam os espaços. Há ainda os que se mantêm como kon'yoku  mas recomendam — ou obrigam — as mulheres (e só elas) a usar toalhas para esconder os seios e o sexo.

 

Para mudar o quadro e afastar banhistas com mau comportamento, os fãs de kon'yoku onsen têm se organizado em diversas frentes. Uma delas é a Associação para a Proteção dos Kon'yoku, de Aomori, no norte do Japão. O grupo formado por frequentadores do Sukayu Onsen surgiu para afastar banhistas mal intencionados do local, famoso pelo Sennin-buro. O banho, cujo nome tem como tradução literal 'ofurô para mil pessoas', é considerado o maior espaço misto de águas termais do Japão e um ícone da resistência dos kon'yoku onsen.

 

imagem: Sugayu Onsen

 

Mulheres também tem criado redes para compartilhar informações seguras sobre kon'yoku onsen. Uma delas é a Mina, que se autointitula 'a jornalista dos banhos mistos' e já visitou mais de 580 banhos de água termal no Japão. Há anos ela mantêm um site com o registro das experiências em kon'yoku onsen, dando destaque a informações relevantes para mulheres. Mina chega a classificar os banhos com estrelas de acordo com o 'grau de vergonha' para a banhista em cada local. Em suas avaliações, ela considera tanto questões físicas, como a possibilidade de ser vista nua por outras pessoas dentro ou fora do estabelecimento; quanto informações a respeito da possibilidade de sofrer assédio ou da existência de wani entre os homens que frequentam o local. A jornalista encoraja outras mulheres a frequentar os kon'yoku onsen e dá conselhos a quem está se iniciando.

 

Ações como essas podem fazer com que o número de banhos mistos no Japão pare de cair e que mais gente se encoraje a iniciar ou retomar a prática. No meu caso, a visita do Awanoyu foi um marco. Naquele longínquo ano de 2012, eu não sabia nem da existência nem do significado histórico e cultural dos kon'yoku onsen. Somente anos depois que eu descobri que tinha frequentado um e, desde então, visitei outros lugares sempre com a certeza de que se banhar com corpo nu num espaço coletivo, definitivamente, não é indecente. Pelo contrário, os kon'yoku onsen deixam mais claro o significado por trás do conceito de hadaka-no-tsukiai. Porque, para um ser humano — independentemente de sua orientação sexual — não há oportunidade maior para se despir de suas pretensões ou máscaras do que estar nu na frente de outros seres humanos do sexo oposto.

 

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